Código dos quadrinhos: quando as histórias quase foram proibidas

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Antes que a máquina da Segunda Guerra Mundial causasse uma revolução no mundo em aspectos de avanços tecnológicos e globalização dos meios, como a televisão e a internet, os quadrinhos viveram o que foi chamado “era dourada”, quando disputavam espaço nas prateleiras das bancas de jornais ao lado das principais publicações.

O Homem de Ferro da DC Comics apareceu em meados de 1938, dando início a Era de Ouro dos quadrinhos. Dois anos depois, no auge de sua popularidade, a série vendia cerca de 1,5 milhão por mês, alavancado pelo patriotismo que símbolos de homens heroicos, como o Capitão América, atraiam para o cenário da guerra, principalmente quando cruzava com a realidade, como na crítica contra o nazismo de Adolf Hitler.

Quando a guerra acabou, muitos acharam que aquele seria o fim dos ‘anos dourados’, visto que alguns títulos de quadrinhos foram até cancelados. Contudo, outros gêneros, como crime e horror, acabaram florescendo no lugar por lidar com temas mais adultos que falavam diretamente com a sociedade que havia sido deixada após o horror da guerra. Batman foi o primeiro a apelar para um lado mais violento.

Em 1996, foram vendidos de US$ 300 a US$ 320 milhões de revistas nos Estados Unidos, conforme dados da Comichron. Já no início dos anos 2000, as vendas atingiram US$ 400 milhões por ano. Entre 2010 e 2015, foram vendidos US$ 700 milhões e US$ 900 milhões, respectivamente. A 360 Research Reports acredita que a indústria global dos quadrinhos deve atingir quase US$ 4,69 bilhões até 2026, acima dos US$ 3,87 bilhões de 2020 — uma taxa de crescimento de 3,3%.

O início do problema

(Fonte: DC Comics/Reprodução)

(Fonte: DC Comics/Reprodução)

Ou seja, no final das contas, ainda que os quadrinhos tenham desaparecidos das bancas no início dos anos 1980, passando a serem vendidos por lojas de quadrinhos de varejo e depois online, isso não reduziu o frenesi tampouco dispersou a base sólida de amantes e fãs construída em quase 70 anos.

E esse sucesso contínuo todo era de se esperar, visto que para ter certeza é só olhar para todo o faturamento do universo cinematográfico da Marvel Studios, cuja receita mundial alcança a casa dos US$ 23 bilhões, dobrando a da franquia Star Wars.

Com todo esse sucesso é difícil imaginar que os quadrinhos quase deixarem de existir após serem contaminados por um pânico nacional nos EUA. Assim como nada é unânime no mundo, os quadrinhos também não eram. Um artigo de 1940 do Chicago Daily descreveu o gênero como “séries de terror sexual mal desenhadas, mal escritas e mal impressas, um estimulante violento para as crianças”.

Esse tipo de comentário não passou de oposição até o momento em que o livro Seduction on the Innocent, escrito pelo psiquiatra infantil Frederic Wertham, foi publicado em 1954.

Veneno infantil

(Fonte: Vox/Reprodução)

(Fonte: Vox/Reprodução)

Wertham alegou que quadrinhos aumentavam a delinquência juvenil, principalmente aqueles que travam do crime e suas agruras, como violência e morte. Ele chegou a medir o poder da indústria de quadrinhos com o que Hitler havia operado em seu governo, dizendo que o homem era um iniciante em comparação a lavagem cerebral que o gênero fazia com as crianças, atrofiando-as social, moral e mentalmente.

Muito embora a pesquisa do psiquiatra tenha sido baseada, grande parte, em conclusões exageradas, compostas ou alteradas, como mostra um estudo feito em 2012 por Carol L. Tiley, — as pessoas não tiveram outra saída senão ouvir o que o médico tinha para falar. 

O pânico foi tão grande, com os quadrinhos se tornando um bode expiatório para questões sociais, que houve queimas em massa de milhares de revistas pelo país.

(Fonte: Baltimore or Less/Reprodução)

(Fonte: Baltimore or Less/Reprodução)

Apesar de Wertham nunca ter apoiado esse tipo de movimento de destruição, ele defendeu que a venda fosse ilegal para pessoas com menos de 15 anos, e que fosse instaurado um sistema de classificação indicativa sobre o teor do conteúdo das narrativas.

O Congresso enxergou na indústria de quadrinhos a oportunidade de perseguir e capturar mafiosos famosos do crime organizado que tinham conexões com distribuidores de revistas e quadrinhos. O senador Carey Estes Kefauver supervisionou audiências para tentar conectar os pontos, por isso o governo dos EUA nunca tomou nenhuma ação contra a indústria, senão usá-la para capturar verdadeiros criminosos.

Ainda assim, o pânico anti-quadrinhos fez 15 editoras fecharem só naquele ano. As que resistiram, como a EC Comics, a mais popular na publicação de quadrinhos de terror e crime, teve que cancelar suas tiragens.

Apertando o laço

(Fonte: Quadrinheiros/Reprodução)

(Fonte: Quadrinheiros/Reprodução)

Temendo que a indústria afundasse diante às movimentações do governo e o pânico nacional que clamava pela censura, as editoras tiveram que tomar algumas medidas para impedir que isso acontecesse. Foi assim que surgiu o Código dos Quadrinhos, um conjunto estrito de regras que todas as obras precisavam seguir, ao menos que quisessem ser publicadas.

As diretrizes do que poderia ser impresso em uma história em quadrinhos foram baseadas em padrões morais do Código Hays, direcionado aos filmes de Hollywood, vigente entre 1930 e 1968. Todos os quadrinhos passariam pelo pente fino de uma bancada de editores que aprovariam ou sugeririam alterações com base no que poderia passar ou não.

Ainda que não fosse um processo obrigatório, os impressores, distribuidores e varejistas não tinham outra opção senão submetê-las, visto que o medo era maior em lançar algo sem o selo de aprovação do código Comics Code na capa, o que poderia levar a protestos ou boicote ao negócio.

(Fonte: Marvel/Reprodução)

(Fonte: Marvel/Reprodução)

Com isso, o código afetou a liberdade de expressão das histórias, principalmente de terror, cujas palavras “horror” e “terror” nos títulos não passavam pela banca de aprovação. Além disso, proibições muito específicas e subjetivas dificultaram o mercado desse gênero de história, banindo temas com monstros, lobisomens, vampiros, zumbis e fantasmas.

Já em um aspecto mais abrangente, crimes não poderiam ser retratados, a menos que fossem frutos de magia ou ficção científica. Não poderia haver referência ao uso de drogas, presença de linguagem imprópria, gírias, nudez ou conteúdo sexual.

Mudando para sempre

(Fonte: Napa Valley Register/Reprodução)

(Fonte: Napa Valley Register/Reprodução)

Com o que os quadrinistas mais sofreram foi com a subversão do teor das histórias, em que a moralidade contaminou todos os aspectos da narrativa. As mulheres não poderiam ser desenhadas com curvas consideradas “voluptuosas demais”, pois esta seria uma imagem considerada sexualizada, podendo, supostamente, despertar impulsos impróprios nos jovens. Na esteira disso, o romance era permitido apenas se enfatizasse o “valor do lar e santidade do casamento”.

Todo o tipo de autoridade, de policiais a juízes, precisavam ser retratados como homens inteligentes e eficazes, bem como o governo deveria lidar com questões criminais de maneira perfeita, sem margem para erros, criando uma realidade extremamente alterada e utópica.

(Fonte: Foursquare/Reprodução)

(Fonte: Foursquare/Reprodução)

Com a década de 1970, tanto o pânico quanto as restrições impostas pelo código foram diminuindo com o passar do tempo, aos poucos voltando com todos os aspectos que construíam a história como antes, porém, a essa altura, a indústria dos quadrinhos já havia mudado para sempre.

O selo de aprovação caiu definitivamente em 2011, após a DC e Archie Comics pararem de se preocupar em obter aprovação para suas histórias, dez anos após a Marvel Comics tomar a iniciativa. O código foi substituído por um sistema parecido com a classificação indicativa para a televisão e o cinema, permitindo que todos os tipos de histórias fossem contadas.

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